Os Kuikuro são, hoje, o povo com a maior população no Alto Xingu. Eles constituem um sub-sistema carib com os outros grupos que falam variantes dialetais da mesma língua ( Kalapalo, Matipu e Nahukuá) e participam do sistema multilíngüe conhecido como Alto Xingu, na porção sul da TI Parque Indígena do Xingu. Na história da formação deste sistema, os povos carib são considerados como tão importantes quanto os aruak ( Waujá e Mehinako), embora se atribua aos aruak a sua matriz inicial. 

Os Kuikuro são, hoje, o povo com a maior população no Alto Xingu. Eles constituem um sub-sistema carib com os outros grupos que falam variantes dialetais da mesma língua ( Kalapalo, Matipu e Nahukuá) e participam do sistema multilíngüe conhecido como Alto Xingu, na porção sul da TI Parque Indígena do Xingu. Na história da formação deste sistema, os povos carib são considerados como tão importantes quanto os aruak ( Waujá e Mehinako), embora se atribua aos aruak a sua matriz inicial. Nesta seção são dadas informações mais detalhadas sobre a língua, a história e outras características dos Kuikuro, produtores dos famosos colares e cintos de caramujo pelos quais continuam desempenhando seu papel específico no sistema tradicional de trocas e pagamentos do sistema alto-xinguano. Para outros aspectos culturais e sociais, como xamanismo, cosmologia e festas ou rituais, a seção Parque Indígena do Xingu apresenta elementos que se encontram também entre os Kuikuro.

Nome
No final do século XIX o etnólogo alemão Karl von den Steinen (1940) registrava entre os vários povos das margens do rio Culuene a existência dos Guikuru ou Puikuru ou Cuicutl. Steinen observava a dificuldade de representar na escrita um som particular, mas muito comum, das línguas carib alto-xinguanas, uma espécie de ‘g’ produzido com batida da úvula. Os Kuikuro hoje escrevem este som com ‘g’, mas os brancos se acostumaram a escrevê-lo com ‘r’.

A palavra ‘Kuikuro’ tem uma história. O nome que Steinen ouvia e tentava registrar era aquele de um grupo local que naquela época habitava a aldeia Kuhikugu, uma contração de kuhi ekugu, “kuhi verdadeiro”, à beira de uma lagoa com muitos peixes kuhi (Potamorraphis, fam. Belonidae). Os de Kuhikugu constituíram a primeira aldeia de um novo grupo local, que se separou dos outros grupos locais carib do Alto Xingu em meados do século XIX; foram eles os fundadores de um povo que os brancos chamam até hoje de Kuikuro. A deformação do nome do antigo Kuhikugu ótomo se cristalizou como sendo o nome coletivo dos seus descendentes e o sobrenome individual de cada um deles: para os brancos, Kuikuro.

A autodenominação é dada sempre pelo nome do local ou aldeia ao que se segue o termo ótomo, “donos ou mestres”. Assim, os atuais Kuikuro são Ipatse ótomo ou Ahukugi ótomo ou Lahatuá ótomo, “os donos de Ipatse, de Ahukugi ou de Lahatuá”, nomes das três aldeias hoje existentes. Muitos velhos, contudo, continuam usando a expressão Lahatuá ótomo, do nome da aldeia forçosamente abandonada após a epidemia de sarampo de 1954, que dizimou metade da sua população.

Localização e População
Os Kuikuro fazem parte do que pode ser chamado de subsistema karíb alto-xinguano. Este é constituído, hoje, por quatro grupos: além dos Kuikuro, os Matipu, os Nahukuá e os Kalapalo. Seu território tradicional é a região oriental da bacia hidrográfica dos formadores do rio Xingu (rios Culuene, Buriti e Curisevo).

Os Kuikuro habitavam, em 2004, três aldeias. A aldeia principal e maior era Ipatse, pouco distante da margem esquerda do médio Culuene, onde viviam mais de 300 pessoas. Em 1997, surgiu a aldeia de Ahukugi, na margem direita do Culuene, rio acima de Ipatse, com cerca de 100 pessoas. Em seguida, formou-se uma terceira aldeia no local da antiga Lahatuá, com um grupo familiar de uma dezena de pessoas.

Uns 30 Kuikuro viviam, em 2004, na aldeia yawalapiti. Fortes e intensas alianças políticas e matrimoniais entre Kuikuro e Yawalapiti ajudaram o ressurgimento dos Yawalapiti como aldeia (e como grupo local) a partir dos anos 50. Em conseqüência de inter-casamentos, outros Kuikuro vivem em outras aldeias do Alto Xingu, sobretudo nas dos outros povos karíb da região.

Língua
Em fim de 1800, Karl Von den Steinen, etnólogo alemão, coletou listas de palavras das línguas alto-xinguanas, entre as quais a língua nahukuá. Steinen encontrou os Nahukuá em sua viagem descendo o rio Xingu e generalizou este nome para todos os povos karib do Alto Xingu, incluindo os então Kuhikugu (Steinen, 1940). Foi ele que classificou corretamente a língua nahukuá como pertencendo à família karib. O Kuikuro é então uma língua karib meridional.

Kuikuro, Kalapalo, Nahukuá e Matipu falam todos variantes dialetais de uma mesma língua (karib alto-xinguano). A identidade lingüística é um dos emblemas mais importantes da identidade social dos grupos locais. Assim, o jogo contrastivo das identidades sócio-políticas dos grupos locais karib se faz com base nas diferentes estruturas rítmicas (prosódicas) que contrastam variantes dialetais. Kalapalo e Nahukuá falam a mesma variante. Os Matipu já estão esquecendo sua variante, falada somente pelos mais velhos; o Matipu parece ser uma sub-variante da variante Kuikuro.

Do ponto de vista da classificação genética no interior da família karib, a língua karib do Alto Xingu é uma espécie de ilha distinta nas suas estruturas sintática e fonológica. Do ponto de vista da tipologia morfossintática, é uma língua ergativa (pelo menos, pela morfologia de caso nominal). Uma primeira comparação da língua karib alto-xinguana com as línguas karib setentrionais (ao norte do Rio Amazonas) e com as outras meridionais ( BakairiIkpengArara, Yaruma e Apiaká do Tocantins, estas duas últimas extintas) permite projetar um cenário pré-histórico em que houve uma primeira separação do proto-karib que deu origem à proto-língua dos atuais karib alto-xinguanos e uma segunda separação, posterior, que deu origem à proto-língua dos outros povos karib meridionais.

Os intercasamentos fazem com que o monolingüismo em Kuikuro (ou na língua karib alto-xinguana) caracterize muitos, mas não todos os habitantes das aldeias de Ipatse, Ahukugi e Lahatuá. Há não poucos indivíduos bilíngües ou trilíngües com conhecimento de outras línguas da região, aruak ou tupi. Na aldeia Yawalapiti, o Kuikuro parece ser a língua dominante. O domínio do português varia dependendo da idade e do sexo. Alguns homens, com histórias de vida particulares (chefes, líderes políticos), e os mais jovens (hoje, abaixo dos trinta anos) sabem o português em graus variados de fluência. São ainda raras as mulheres que usam o português, mas seu número está crescendo.

O kuikuro é uma língua ainda viva e íntegra, usada por todos em todos os domínios, mas não na comunicação com os brancos e outros índios. A escolarização, os contatos cada vez mais intensos com o exterior, as viagens constantes para as cidades, a presença cada vez mais impositiva da televisão e de outras mídias na aldeia, fazem com que o conhecimento e o uso do português esteja crescendo rapidamente. O Kuikuro é, como todas as línguas indígenas, uma língua minoritária de tradição oral sobrevivendo num contexto desfavorável para a manutenção de sua vitalidade.

Aldeia
As aldeias Kuikuro são como todas as aldeias alto-xinguanas. A organização das aldeias, a planta circular com praça central e os padrões de aldeamento regional são outros elementos da cultura xinguana que mostram continuidade da época mais antiga até o presente.

As aldeias circulares com praça central são estruturadas de acordo com princípios e uma orientação precisos que permitem um entendimento da organização política e social da sociedade xinguana. As praças xinguanas e as estradas radiais (como os grandes caminhos das aldeias pré-históricas) que se departem da praça são orientadas nas direções cardinais (Norte/Sul, Leste/Oeste), assim como em relação a traços importantes da paisagem local, incluindo outras comunidades e locais como portos e pontes. Essa orientação não somente revela a integração de várias aldeias através do território, mas também demonstra um entendimento sofisticado do desenho arquitetônico, da astronomia e da geometria.

As casas Kuikuro, como todas no Alto Xingu, são grandes malocas de base ovalada; sua estrutura e sua construção revelam um conhecimento arquitetônico extremamente complexo.

Cosmologia, Xamanismo e cura
As narrativas tradicionais, que os brancos chamam de ‘mitos’ e que os Kuikuro chamam de akinhá ekugu (narrativas ‘verdadeiras’), contam como o universo existe tal como ele é e explicam a origem de cantos, festas (rituais), bens culturais, plantas cultivadas, categorias de seres. Tudo o que existe e merece explicação está associado a uma ou mais narrativas. Giti, Sol, é o herói cultural por excelência, criador, junto com seu irmão gêmeo Aulukuma, Lua. Os demiurgos, contudo, incluem uma galeria de antepassados de Sol e Lua e são eles os descendentes do casamento entre Atsiji, Morcego, e Uhaku, uma árvore. O tempo da criação era (e é) o tempo em que humanos e não humanos se comunicavam, em que todos falavam, em que os humanos viviam no meio dos itseke. Estes são seres sobrenaturais que povoam a floresta e o fundo das águas; são perigosos, sedutores, causam doença e morte, tem poderes de transformar-se em humanos ou animais. Muitos animais e até artefatos têm uma existência real, atual, adequada e uma existência monstruosa, excessiva, como itseke. Podem ser, por outro lado, ‘espíritos’ auxiliares dos xamãs (hüati) em seu papel de curadores, em suas visões e viagens que os outros não podem ver nem experimentar. Somente os xamãs têm o poder de relacionar-se (perigosamente) com os itseke; a doença e o sonho são estados que podem, todavia, colocar em contato humanos em geral e itseke.

Máscaras representam vários tipos de itseke em rituais executados para o restabelecimento da ordem, do equilíbrio e da saúde. Tornar-se xamã é uma escolha individual e um chamado sobrenatural por ocasião de episódios de doença ou através do sonho. O xamã adquire seus poderes ao longo de uma demorada e difícil iniciação, aprendendo com um outro xamã mais velho, submetendo-se às restrições alimentares e sexuais, entre outras, que caracterizam os estados de reclusão. Ele pode então tornar-se um curador, com uma visão excepcional, pode diagnosticar as causas de doenças, mortes, roubos, desastres ‘naturais’, para identificar os kugihe oto, ‘donos de feitiço’. O preço de seus serviços é alto, pago com bens valiosos. Há uma distinção entre xamã – e mulheres podem ser xamãs – e kehegé oto, ‘dono de rezas’. Este último aprende e sabe utilizar ‘rezas’ para curar diversos tipos de doenças, ou facilitar o parto.

As ‘rezas’ são fórmulas transmitidas de geração em geração, parte em língua aruak e parte em língua carib, pronunciadas susurrando no ouvido do paciente. Os ‘batismos’ são semelhantes às ‘rezas’ e servem para ‘batizar’os primeiros frutos de certos alimentos vegetais, como o pequi e o milho. A cura pode ser realizada também por meio de remédios, graças ao considerável conhecimento de plantas que crescem nos diferentes ecossistemas do Alto Xingu. Remédios (embuta) não são apenas para a cura; os alto-xinguanos produzem e utilizam eméticos, assépticos e substâncias entendidas como fortificantes para os que se encontram em períodos de reclusão.

Há um mundo celeste (kahü, cujo ‘dono’ é o urubu bicéfalo) onde mortos e itseke habitam aldeias. A akunga (‘sombra’, ‘alma’) do morto se desprende do corpo, perambula durante um certo tempo entre os vivos para depois empreender uma longa viagem de encontros e batalhas, com aves e monstros, que, às vezes, conseguem destruir definitivamente a akunga. Os mortos têm destinos diferentes dependendo do tipo de sua morte.

Os Kuikuro possuem um sofisticado conhecimento de estrelas e constelações, projetando no céu personagens e acontecimentos míticos. A observação do nascer helíaco de certas estrelas regula atividades produtivas e rituais, estruturando as estações da seca (de maio a outubro) e da chuva (de novembro a abril).