Os Manchineri compartilham com os Piro, na Amazônia peruana, uma língua aruak (do ramo Maipure) e boa parte de seu sistema sócio-cosmológico, podendo ser considerados grupos que fazem ou já fizeram parte de um mesmo povo. Em território brasileiro, a maioria dos Manchineri habita na Terra Indígena Mamoadate, havendo ainda muitas famílias vivendo em seringais no Acre, sobretudo no interior da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Os Manchineri compartilham com os Piro, na Amazônia peruana, uma língua aruak (do ramo Maipure) e boa parte de seu sistema sócio-cosmológico, podendo ser considerados grupos que fazem ou já fizeram parte de um mesmo povo. Em território brasileiro, a maioria dos Manchineri habita na Terra Indígena Mamoadate, havendo ainda muitas famílias vivendo em seringais no Acre, sobretudo no interior da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Localização

Os Manchineri ocupam atualmente uma parte da região sul do estado do Acre no Brasil e outros pontos no Peru e Bolívia. Em território brasileiro,os Manchineri são hoje um povo que se encontra espalhado na Terra Indígena (TI) Mamoadate e na TI Manchineri do Seringal Guanabara e, em menor número, no São Francisco e no Macauã, bem como na cidade de Assis Brasil.

Grosso modo, o ambiente que ocupam é dividido pelos Manchineri em três grupos: os rios, os campos limpos e a mata. Historicamente os Manchineri circulam por estes três ambientes desde que ocupam esta região.

Os rios a as matas são locais um tanto fixos, sem grandes variações sazonais no seu posicionamento. Já os campos limpos estão localizados nas margens dos rios e em geral são aparentes somente nas épocas do verão. Como se trata de planícies que são inundadas nas cheias, quando o rio abaixa, uma parte do terreno antes inundado é ocupado pelas gramíneas de uma forma bem variada. Nestes locais animais pastadores, como os veados, e outros que se dirigem constantemente ao rio, como as capivaras, são encontrados e caçados com alguma freqüência.

A mata, grosso modo, se subdivide em: restinga – mata sem taboca (um tipo de bambu com espinhos), limpa por baixo, fácil de andar e com muita caça, constituindo uma vegetação mais velha e próxima do clímax ecológico. Em geral estão a uma certa distância de pontos de ocupação humana. Em oposição direta temos a mata com taboca – onde existem poucas árvores de pequeno e médio porte, sendo uma vegetação nova. É mais comum na beira das trilhas, em volta de roçados e onde estes foram abandonados. Há ainda um espaço de transição, a mata misturada – onde o tabocal completou seu ciclo de vida e começa a morrer, e a mata começa a crescer, havendo poucas ou nenhuma árvore de grande porte.

Organização social

Entre os Manchineri, a casa básica é formada pelo avô, avó, filhos e netos. Quando não residem todos na mesma casa, ocupam residências próximas, no mesmo terreno. No entanto, cada casal tem um roçado separado.

As denominações das categorias de parentesco manchineri estão delineadas abaixo. Nas duas primeiras situações as denominações independem do sexo de ego. A denominação dos tios maternos ou paternos independe da relação de idade entre os irmãos. Npaliqleru e Npaliqlero são como os próprios filhos de um dado casal, estando inclusive proibidos sob tabu de incesto de se casarem com os filhos deste casal, designados pelo mesmo nome. É portanto proibida a união entre primos paralelos, algo idêntico ao incesto. Já o casamento entre primos cruzados é muito comum, mas não é uma regra.

Uma outra categoria muito encontrada entre os povos da floresta no Acre, incluindo os Manchineri, são os compadres e comadres. O compadrio tem uma importância fundamental nas questões de aliança entre famílias. Os compadres são mesmo como irmãos, e nota-se na fala a importância deste fato, quando os índios se referem a alguém como seu compadre. Entre seringueiros o procedimento é o mesmo. Tornam-se compadres os padrinhos de batismo e os pais de filhos que se casam.

 

Xamanismo e Rituais

A palavra utilizada para pajé me foi descrita como Karrunhotí. Gow a registrou em Piro como Kagonchi. Esse personagem percorria diversos círculos da vida Manchineri.

Tinha o Karrunhotí. Ele ia sozinho na mata tomar cipó. Ia só e com quem ele ia curar, na mata pura. Atava uma rede nas árvores e tomava. No dia seguinte o sujeito estava bom. E num ia mulher de jeito nenhum. Ele era o mesmo que o Tuxau [o chefe político], ele era mais que o Tuxau. Ele conhecia outras coisas diferentes do Tuxau. Ele colocava a rede, começava a cantar, e quando chegava a hora ele dizia ‘chega aqui’. Aí chegava o que estava doente, o que ele podia tirar pegando assim ele tirava, o que num podia ele chupava. No outro dia estava bonzinho. Ele mostrava o que ele puxava. Karrunhotí matava. Quando tinha uma morte vingava mesmo. Eles brigavam entre eles, porque um queria ter mais poder que o outro. Ele fazia assim antigamente. Meu pai contava assim. Diz que ia caçar, um tio, um sobrinho, ele mandava onça acompanhar. Aí se perdia, a onça aparecia e dizia ‘não, o caminho é bem aí!’ a onça contava. Trabalhava pelo Karrunhotí. Meu pai cantava, cantava sozinho assim” (Charuto, filho de um famoso pajé manchineri, Ananias Batista).

Um dos sinais de que o sujeito pode ser iniciado na aquisição das técnicas xamânicas é o encontro com seres sobrenaturais, como o Caboclinho do Mato, um homem pequeno que vive na mata. Ele é o responsável por administrar o quanto se pode ou não caçar. Além disso, é um dos espíritos que ensinam aos aprendizes de pajé. Tais ensinamentos se dão em geral durante sessões de ayahuasca e o encontro com um ser desses em um estado ordinário de consciência é sempre um evento bastante perigoso. O Caboclinho do Mato era um índio que se transformou em Encantado de tanto tomar cipó. Ele foi transportado para o mundo espiritual com corpo e tudo, sem passar pela morte.

A aquisição do poder por um Karrunhotí, antes que conquistado, é dado à pessoa por um ser físico ou espiritual. Todo o processo de formação do Karrunhotí é um meio pelo qual se prepara o corpo e a mente para que o conhecimento possa ser percebido e recebido. Para se perceber deve-se estar pronto para receber, no local certo, na hora certa, e com um estado de espírito determinado. Forma-se então a ponte entre mundos, uma ponte viva na pessoa do xamã, do pajé, do Karrunhotí.

Aspectos cosmológicos

Para os Manchineri, os ‘outros mundos’ estão entremeados dentro deste, sem que barreiras nítidas possam ser distinguidas. Manifestam-se de acordo com o estado de consciência em que o indivíduo se encontra. Ainda que estas alterações não passem necessariamente pelo uso de substâncias inebriantes, o auge disto vem pelo uso da ayahuasca, bastante comum entre os Manchineri.

No início dos tempos, o povo do cipó transformou-se em seres encantados, pois foram levados vivos para o céu. Esses seres auxiliam o pajé em suas tarefas. Mas, para que se possa ir ao céu, é preciso se abster do mundo da caça. Ou então se abre mão do céu para se penetrar no universo da caça. A iniciação como xamã em geral torna o sujeito um mau caçador, pois se pode conversar com os animais, reconhecendo neles parentes, ficando assim difícil matá-los.

Segundo a mitologia, a ayahuasca surge da seguinte forma: um pajé encontra um ser na mata, o próprio cipó, que antes de se identificar como tal diz ser uma pessoa do gênero feminino. A cipó conta ao pajé como deve proceder para prepará-la e com que deve misturá-la – as folhas ou tempero – para que o efeito seja completo.

Como na maioria dos povos ameríndios, muitos mitos manchineri são protagonizados por onças, que encarnam o protótipo do outro, seja ele estrangeiro ou afim. Há narrativas de bando de onças que atacam caçadores na mata, outras que atacam malocas. A primeira maloca manchineri, diz o mito, foi destruída por um ataque de onças. Posteriormente, um novo povoado tem início. Uma mulher casa-se com um índio que não a mantêm direito, não lhe dá carne e vive fora de casa. Ela apenas se alimenta de macaxeira que ela mesma planta. Remexendo as coisas do marido ausente, essa mulher encontra um paneiro com ossos de índios de outras aldeias. Seria este marido um canibal, um guerreiro ou um xamã? O fato é que ele colecionava os ossos, transformados em flautas.

A mulher encontra então um novo marido dentro de casa, uma personificação de um dos ossos, o mais bonito de todos. Surge Tso’lati, pai, no osso, e filho, na barriga da mulher. O pai acaba por ser destruído pelo marido traído. Mas o filho permanece. A mãe é expulsa de casa e tem o filho como guia por suas andanças na mata, até que ela, cansada com a falação do filho ainda dentro de seu ventre, bate na barriga. A criança fica com raiva, pára de orientá-la e a mulher acaba por se perder, indo para a aldeia das onças, onde morre, mas não sem antes dar à luz oito filhos.

Tso’lati vive com fome, até que descobre sua origem e quem era sua verdadeira mãe. Inicia-se um movimento de retaliação e vingança contra aqueles que mataram sua mãe e pouco a pouco, principalmente através de atitudes jocosas que as onças não conseguem imitar, os irmãos acabam por matar todo bando de onças. E no meio da matança Tso’lati se transforma em deus. Um deus que vinga a morte da mãe e que se torna exemplo para os antigos, que para sobreviver fugiam dos inimigos.

Num outro mito, uma onça acha uma menina graciosa e a leva embora. No início os irmãos dela (ela era órfã e era cuidada pelos irmãos já casados) não ligam muito para seu desaparecimento, mas depois resolvem procurá-la. Encontram pelo caminho macacos que contam que a menina já havia se transformado em onça. Eles a encontram e acabam por ir com ela até onde estava vivendo agora, junto com as onças. Desconfiados da companhia, são convidados para dormir lá. No meio da noite fogem, assustados, chamando a irmã para voltar com eles. Mas ela não aceita, pois já tinha virado definitivamente onça.

Assim, o convívio transforma a pessoa, o corpo é moldado pelo universo onde a pessoa está inserida. Migra-se de mundo, alimenta-se de outras comidas, convive-se com outras pessoas. Com o tempo a pessoa acaba por se transformar, adota a forma típica da cultura onde agora está vivendo. Mas, de acordo com os Manchineri, a incorporação do sal na dieta alimentar (decorrente do contato com os não-indígenas) representa o fim da capacidade de transformação de humanos em seres diversos. Hoje em dia homens não se transformam mais em bichos porque possuem sal no corpo. O sal, ao surgir, quebra o que antes era uma continuidade entre o doce e o amargo, criando um novo arranjo simbólico.