Em sua totalidade, os índios conhecidos sob o etnônimo englobante Pataxó Hãhãhãe abarcam, hoje, as etnias Baenã, Pataxó Hãhãhãe, Kamakã, Tupinambá, Kariri-Sapuyá e Gueren. Habitantes da região sul da Bahia, o histórico do contato desses grupos com os não-indígenas se caracterizou por expropriações, deslocamentos forçados, transmissão de doenças e assassinatos. A terra que lhes foi reservada pelo Estado em 1926 foi invadida e em grande parte convertida em fazendas particulares. Apenas a partir da década de 1980 teve início um lento e tortuoso processo de retomada dessas terras, cujo desfecho parece ainda longe, permanecendo a Reserva sub-judice

Localização e população

Habitam a Reserva Indígena Caramuru-Paraguassu, no sul da Bahia, nos municípios de Itajú do Colônia, Camacã e Pau-Brasil. Vivem também na Terra Indígena Fazenda Baiana, no município de Camamu, no baixo-sul da Bahia.

A população da RI Caramuru-Paraguaçu compreendia, em 2005, 2.147 indivíduos, sendo 1.139 homens e 1.008 mulheres. Já os habitantes da Fazenda Baiana somavam 72 pessoas (33 homens e 39 mulheres). Os dois conjuntos populacionais totalizavam 2.219 pessoas.

A RI Caramuru-Paraguaçu compõe uma faixa que se estende do rio Cachoeira ou Colônia, ao norte, até o Pardo, ao sul. À margem direita do rio Colônia foi, em 1927, instalado o Posto Caramuru, ao norte da reserva, em área formada por extensos pastos artificiais. O único rio que corta a reserva é um riacho de água salobra, sugestivamente denominado Salgado. A água para consumo humano provém da estocagem da água de chuva ou, esporadicamente, abastecimento por caminhão pipa ou tambores mediante pagamento de frete.

Língua

As línguas das várias etnias compreendidas sob o etnônimo Pataxó Hãhãhãe não estão mais operativas, salvo por vocábulos lexicais. Até 1911, as línguas pataxó e kamakã estavam, seguramente, em plena vigência, o que significa que o violento contato a que os índios foram compelidos, através do SPI (Serviço de Proteção aos Índios), causou-lhes terrível impacto, atingindo também as línguas nativas. No caso da língua pataxó, ela persistiu, no mínimo, até 1938, quando Curt Nimuendaju encontrou falantes estabelecidos na Reserva Caramuru-Paraguaçu. M. de Wied-Neuwied, F. Martius, B. Douveille, C. Nimuendaju e Maria Aracy Lopes da Silva e Greg Urban coligiram vocabulários entre os Pataxó setentrionais ou Hãhãhãe, em distintos períodos, mas apenas Wied-Neuwied recolheu-o entre os chamados Pataxó meridionais. Nimuendaju observou, a esse respeito, que não obstante o seu vocabulário divergisse muito daquele que o príncipe tomou de um grupo Pataxó na Vila do Prado, em 1816, ele acreditava tratar-se de vocabulários de uma mesma nação.

Um vago parentesco da língua Pataxó com a família lingüística Maxakali já havia sido suscitado desde C. Loukotka. Martius reuniu as línguas Macuni, Copoxô, Cumanaxô, Panhame e Monoxô, Pataxô e Malali, e mais algumas outras, no grupo lingüístico dos “Goytacás”, admitindo algum parentesco com o grupo Jê. Steinen reduziu o grupo Goytacá aos Maxakali, Macuni, Capaxô, Cumanaxô e Panhame e, sob reserva, os Pataxó, e fez dele uma subdivisão do grupo Jê. Ehrenreich, Rivet e o P. Schmidt conservaram esta classificação. Somente em 1931, C. Loukotka, examinando outra vez e detidamente os escassos vocabulários existentes, chegou à conclusão de que essas línguas, inclusive o Malalí mas exclusive o Pataxó, formavam uma família lingüística completamente independente da família Jê, com o que concordou Nimuendaju, que julgava que também a cultura dessas tribos, “tanto a material como a espiritual”, os distanciava grandemente dos Jê (Nimuendaju 1954 :61).

Em 1971, o Cel. Antônio Medeiros de Azevedo cedeu a Agostinho uma lista de 71 vocábulos dos mesmos índios, por ele obtida quando no comando da tropa que, em 1936, submeteu o posto Paraguaçu. Agostinho obteve, por sua vez, um vocabulário com o total de 120 formas, recolhido entre os Pataxó meridionais (Porto Seguro e adjacências). Cópias da lista de Azevedo e dos questionários-padrão que Agostinho aplicou, juntamente com a fita magnética gravada, nessa oportunidade, foram remetidas ao Setor de Lingüística do Museu Nacional para fins comparativos. Aryon Dall´Igna Rodrigues, que procedeu à análise, concluiu tratar-se de material pertinente à língua Maxakali (informação pessoal a Pedro Agostinho). De fato, Rodrigues classifica a língua Pataxó como parte da família lingüística Maxakali e as línguas Kamakã, Mongoiá e Menien como incidentes na família Kamakã (Rodrigues 1986).

História

Nas terras onde está localizada a Reserva Caramuru-Paraguaçu, criada pelo então Serviço de Proteção aos Índios (SPI), em 1926, em terras devolutas do Estado da Bahia, para “gozo dos índios Pataxós e Tupinambás” (Lei Estadual nº 1916/26. Diário Oficial. Salvador, 11/08/1926. Pp. 9935.), viviam tradicionalmente os Pataxó Hãhãhãe e Baenã, conforme preconiza a tradição oral. O índio Kamuru-Iguaxó Igueligecis, por exemplo, se referiu aos Hãhãhãe como “os índios nativos do posto, conquistados na Serra do Couro Dantas” (entrevista concedida, em 1977, na Aldeia de Barra Velha, Porto Seguro, BA, à Maria Rosário G.de Carvalho).

O não-índio Otaviano, nascido em Itajú do Colônia, na área do PI Caramuru, em uma fazenda denominada Belo Horizonte, referiu-os como os índios “pegados na Serra das Três Pontas, depois re-denominada Itarantim”. O pai de Otaviano teria “amansado” índios na Fazenda Acampamento, estabelecida a dois quilômetros do Posto Indígena Caramuru: “foi onde alojou os índios que vieram de Itarantim. Meu pai foi ajudar a cuidar deles, ajudar a ensinar eles falar, ensinar a trabalhar”. De acordo com o seu depoimento, os índios “pegados” nas matas do PI Caramuru eram deslocados, na época da seca, quando não havia caça, para os locais Rancho Queimado e Mundo Novo, no PI Paraguaçu, ao sul da reserva.

No período da chuva, quando a caça e o peixe eram abundantes, os índios retornavam para Itajú, particularmente para “Toucinho” e “Entra com Jeito”. Otaviano mencionou Honrak: “esse já veio sendo capitão do mato, o chefe da turma, quem comandava a turma toda”, cuja mulher se chamava Titiaca; Bahetá, “essa veio do mato!”, Mucai, Bute, Milú, Arquelau, Tamanin e Ketão, sendo a última “era a índia mais velha que tinha na aldeia”. Detentor de uma memória muita vívida, ele chegou a particularizar certos casos, como o do índio Dedé, “que ninguém sabe se é vivo ou morto porque foi mudado para o Posto Maxacali [presídio Crenak] e desapareceu”, fato que teria ocorrido em 1952 ou 1953, na época do Inspetor Moreira, do SPI, quando o gado e os vaqueiros da reserva foram deslocados para Minas Gerais. Esse foi o período mais intenso da política de arrendamento que fracionou a reserva em parcelas, distribuídas entre vários particulares. Finalmente, ele também referiu aos “descendentes de índios do Catolé Grande” como Davi, marido de Maura Titiá, Arsênio e José Caboclo (entrevista à Jurema M.A. Souza, em Itabuna, 2004).

Devido à extinção de outras aldeias, por força da Lei N. 198, de 21/08/1897, do Poder Executivo do Estado da Bahia, diferentes grupos indígenas foram, em épocas distintas, deslocados para a área da reserva Caramuru-Paraguaçu. De Olivença teriam vindo contingentes Tupiniquim e Botocudo (Aimoré e Gueren); de Santa Rosa, os Kariri-Sapuyá, que já haviam sido expulsos de Pedra Branca, situada na porção sul do Recôncavo baiano; e da antiga aldeia de Ferradas (São Pedro d´Alcântara), grupos Kamakã e Guerén. Otaviano enfatizou que esses não eram índios selvagens. “Esses índios aí foram aparecendo… Ah! aqui é terra de índio, aí foram tomando posse e se habituando, não foram pegos, eles que vieram”.

Os Tupinambá, em geral referidos sob a denominação Índios de Olivença, chegaram à Reserva em 1936, liderados pelo índio Marcelino, em busca de refúgio contra as perseguições sofridas na região do seu antigo aldeamento. O os Kariri-sapuyá foram conduzidos à Reserva, em 1939, pelo etnólogo Curt Nimuendaju, que estava em visita à região; e, finalmente, os de São Pedro d´Alcântâra foram reunidos e recolhidos pelo SPI, a partir de 1926.

Cosmologia e ritual

O Sol é um gênio mal que se nutre dos homens: foi ele que introduziu a morte no mundo. Ao descer à terra, a cada dia, ele se sacia, no decorrer da noite, daqueles que foram enterrados durante o dia. Por isso, quando eram feitas grandes plantações, os Kamakã só queimavam um pequeno aceiro na floresta, a cada vez. A fumaça incomodava ao Sol e ele se tornava vermelho de cólera quando se fazia fogo. Assim, queimando-se pouco a pouco, faz-se menos fumaça e se o irrita menos (Douville apud Métraux 1930: 270 – 271).

A Lua, ao contrário, é considerada uma divindade benfazeja. É ela que indica aos Kamakã o melhor período para plantar, na lua nova, quando ela surge, a oeste, assim que sol se põe. É a Lua também que lhes informa sobre o início dos tempos chuvosos e tempestades e os guia no decorrer da celebração das festas: a cada cinco anos, eles permanecem ao longo de um ano em festas, quando os casamentos são celebrados (Douville apud Métraux 1930: 271).

Nimuendaju recolheu, junto à kamakã Jacinta Grayirá, na reserva Caramuru-Paraguaçu, relato de “histórias bonitas” e “histórias feias”. As primeiras, que ela insistia em contar ao etnólogo, tratavam de brancos ricos, que usavam botas e correntes de ouro e moravam em casas grandes caiadas de branco, cujas esposas se faziam acompanhar de negras que carregavam as crianças. Já as “feias”, que ela resistia a relatar, para desespero de Nimuendaju, tratavam de lobisomens, do Sol e da Lua, almas de defuntos, de cataclismas e de animais que falavam e agiam como gente, ou seja, eram expressões da mitologia kamakã. Não obstante todas as dificuldades interpostas à comunicação entre os dois, ao final ele recolheu um conjunto formado por 24 relatos (Nimuendaju 1938). Destes, estão publicados: os mitos do Sol e Lua; os preás e os caratingas; a enchente; o enfeite do pica-pau; o roubo das flechas; a lua na caverna; eclipses e incêndio mundial; a moça-estrela; o trovão; kecaxkwenyói; a origem das mulheres; o homem que queria morrer; Wadyé; a mulher que ressuscitou como onça; a festa das almas de defuntos; o sagüi; o pica-pau e as kanondarátsi; o herói Korõ; o jaguar na festa dos índios; a mulher e o casal de jaguares; a onça teimosa; o homem entre as antas; a batalha das aves; os irmãos encantados; o viajante (Viveiros de Castro 1984:98- 106).

Os Pataxó, por sua vez, temem o trovão, considerado como um espírito maligno que retorna para levar qualquer um. Eles teriam grande preocupação de fazer os parentes prometerem chamá-los após a morte, o que significava que, chamados, os homens retornavam, ao contrário das mulheres, que não mais voltavam (Douville ib.:287).

Um velho de 83 anos oriundo da Aldeia de Trancoso, Apolinário, transmitiu a Nimuendaju, também em 1938, na Aldeia de Santa Rosa, alguns mitos sobre temas variados, como o da cabeça sem corpo, perna de lança, gêmeos, fim do mundo e a cerimônia da jurema. Ele e outro índio velho que Nimuendaju mandou buscar em São Bento, às suas expensas, ainda se lembraram do culto da jurema, que, conforme Nimuendaju, os Kamuru da Pedra Branca introduziram na aldeia de Santa Rosa, um deles tendo descrito as visões que havia tido (Viveiros de Castro 1984: 71-73). Apolinário revelou que nos anos de sua mocidade, ele havia tomado parte na cerimônia da jurema celebrada pelos Kamuru-Kariri (ib.:73). Devido à sua especial relevância, transcrevemos, a seguir, esse último mito:

“Iam-se buscar, a leste do sítio da cerimônia, pedaços de galhos de jurema dos quais se tirava a casca, de cima para baixo, com um bastão de pau. A massa lenhosa era posta em infusão com água e depois espremida numa cuia especial (com um prolongamento que servia de cabo). A cerimônia era executada durante a noite para os neobrasileiros não saberem dela. Um certo número de moças sentava-se ao redor da cuia. Elas fumavam de um grosso cachimbo de barro e sopravam a fumaça sobre a bebida, onde ela formava uma camada espessa. Um velho, com um maracá enfeitado com um mosaico de penas grudadas, dançava, com o torso curvado, ao redor do grupo, cantando: Endarindandá nafé nafé nafé! e as moças respondiam: Darindarindandá! Em seguida, o velho dava às moças e aos homens, que formavam uma fileira ao lado, um pouco da bebida de jurema numa pequena tigela de barro.

A jurema mostra o mundo inteiro a quem a bebe: vê-se o céu aberto, cujo fundo é inteiramente vermelho; vê-se a morada luminosa de Deus; vê-se o campo de flores onde habitam as almas dos índios mortos, separadas das almas dos outros. Ao fundo vê-se uma serra azul. Vêem-se as aves do campo de flores: beija-flores, sofrês e sabiás. À sua entrada estão os rochedos que se entrechocam, esmagando as almas dos maus quando estas querem passar entre eles. Vê-se como o sol passa por debaixo da terra. Vê-se também a ave do trovão, que é desta altura (um metro). Seus olhos são como os da arara, suas pernas são vermelhas e no alto da sua cabeça ela traz um enorme penacho. Abrindo e fechando este penacho, ela produz o raio e, quando corre para lá e para cá, o trovão” (Viveiros de Castro 1984: 73).