Inventores da cultura do guaraná, os Sateré-Mawé domesticaram a trepadeira silvestre e criaram o processo de beneficiamento da planta, possibilitando que hoje o guaraná seja conhecido e consumido no mundo inteiro.

Nome

São chamados regionalmente “Mawés. Ao longo de sua história, já receberam vários nomes, dados por cronistas, desbravadores dos sertões, missionários e naturalistas: Mavoz, Malrié, Mangnés, Mangnês, Jaquezes, Magnazes, Mahués, Magnés, Mauris, Mawés, Maragná, Mahué, Magneses, Orapium.

Autodenominam-se Sateré-Mawé. O primeiro nome – Sateré – quer dizer “lagarta de fogo, referência ao clã mais importante dentre os que compõem esta sociedade, aquele que indica tradicionalmente a linha sucessória dos chefes políticos. O segundo nome – Mawé – quer dizer “papagaio inteligente e curioso e não é designação clânica.

Localização
Os Xavante somavam, em 2020, cerca de 22.256 pessoas abrigadas em diversas Terras Indígenas que constituem parte do seu antigo território de ocupação tradicional há pelo menos 180 anos, na região compreendida pela Serra do Roncador e pelos vales dos rios das Mortes, Kuluene, Couto de Magalhães, Batovi e Garças, no leste matogrossense. Afora as Terras Indígenas Chão Preto e Ubawawe que são contíguas a TI Parabubure, as demais terras xavante – Marechal Rondom, Maraiwatsede, São Marcos, Pimentel Barbosa, Areões e Sangradouro/Volta Grande – são geograficamente descontínuas. Localizadas em meio a um conjunto de bacias hidrográficas responsáveis pela rica biodiversidade regional e, portanto, base do modo de vida tradicional indígena, essa região vem sofrendo impactos ambientais (dificilmente reversíveis) desde a década de 1960 devido à sua incorporação pela agropecuária extensiva, processo intensificado a partir da década de 1980 pela crescente implementação da produção de grãos para exportação, em especial, a soja.

Língua

A língua Sateré-Mawé integra o tronco lingüístico Tupi. Segundo o etnógrafo Curt Nimuendaju (1948), ela difere do Guarani-Tupinambá. Os pronomes concordam perfeitamente com a língua Curuaya-Munduruku, e a gramática, ao que tudo indica, é tupi. O vocabulário mawé contém elementos completamente estranhos ao Tupi, mas não se relaciona a nenhuma outra família lingüística. Desde o século XVIII, seu repertório incorporou numerosas palavras da língua geral.

Os homens atualmente são bilíngües, falando o Sateré-Mawé e o português, mas, apesar de mais de três séculos de contato com os brancos, nas aldeias mais afastadas ainda se encontra mulheres que só falam a língua materna.

Localização
Os Sateré-Mawé habitam a região do médio rio Amazonas, em duas terras indígenas, uma denominada TI Andirá-Marau, localizada na fronteira dos estados do Amazonas e do Pará, que vem a ser o território original deste povo, e um pequeno grupo na TI Coatá-Laranjal da etnia Munduruku. Os Sateré-Mawé também são encontrados morando nas cidades de Barreirinha, Parintins, Maués, Nova Olinda do Norte e Manaus, todas situadas no estado do Amazonas.

Organização sociopolítica
Esta sociedade estrutura-se em clãs – os ywania – havendo uma hierarquia entre eles, onde o clã sateré (lagarta de fogo) sobrepuja-se aos demais, uma vez que indica os bons tuxauas. Os clãs estão presentes na cosmologia e são narrados nos mitos – saray potairia (as belas palavras dos Sateré-Mawé), e nos cantos do Waymat (ritual da tucandeira). Este ritual de passagem da puberdade para a vida adulta é o evento que tradicionalmente reúne os clãs.

Os clãs são os seguintes: sateré (lagarta de fogo), waranã (guaraná), ywaçaí (açaí), akuri (cotia), awkuy (guariba), as’ho (tatu), iaguaretê (onça), piriwato (rato grande), akyi (morcego), mói (cobra), hwi (gavião), nhampo (pássaro do mato), uruba (urubu) e nhap (caba). Geralmente os xamãs – paini na língua sateré-mawé, são do clã mói (cobra).

Os Sateré-Mawé são patrilineares, e esta regra de parentesco determina o pertencimento ao grupo. As categorias de consanguíneos (por exemplo: pai, tio paterno, tia paterna) correlacionadas aos ywania (clãs) dos cônjuges geram uma rede de relações sociopolíticas internas, rebatidas na vida política externa.

O casamento é exogâmico, e esta regra faz com que as mulheres tornem-se o elo de aliança entre os ywania (clãs), vivendo em sua comunidade de origem até o casamento, para então passar a morar com a família de seu marido. Estas relações, ao contrário das consanguíneas, podem ser desfeitas, motivando um rearranjo entre os clãs, e entre as correlações de força entre os sítios de família extensa e as aldeias. Tratam-se, portanto, de clãs exogâmicos, patrilineares e patrilocais, onde os homens permanecem no seio familiar e as mulheres casadas passam a viver num grupo de estranhos, os parentes de seu marido. No entanto, a regra da patrilocalida não é rígida, e é possível que os sogros atraiam seus genros para, por exemplo, aumentarem os sítios e as aldeias, verificando-se então a convivência de várias “nações”, termo dado pelos Saterá-Mawé aos ywania (clãs).

Existe uma hierarquia na relação entre irmãos, que se desdobra na estrutura social Sateré-Mawé. Segundo Alvarez (2009), “A relação hierárquica do plano e parentesco serve como metáfora para pensar as relações políticas no interior do grupo. O tuxaua é pensado como o irmão mais velho, o que está na linha de frente, o que dá suporte ao grupo”.

Os Sateré-Mawé estão organizados sob a autoridade do chefe da família extensa, que reside em um sítio com sua família, congregando as famílias elementares dos filhos casados. O dono do lugar, o tuissa (tuxaua) organiza e orienta todas as atividades de sua comunidade, é ele que convida os parentes e conhecidos de outros sítios ou aldeias para reforçar o contingente de trabalho, reunindo-os nos puxiruns para abertura de roças, limpeza dos guaranazais, beneficiamento do guaraná, etc. Nessas ocasiões, previamente, ele ordena que cace, pesque e torre farinha, para prover a alimentação dos convidados.

Também é atribuição do tuissa solucionar os conflitos internos, manda construir as casas, assessorar a comercialização da produção agrícola dos seus familiares e agregados, promover os rituais. Cabe ao tuxaua hospedar os visitantes demonstrando sua generosidade e procedendo à função cerimonial de oferecer çapó – guaraná em bastão ralado na água, bebida cotidiana, ritual e religiosa, que é consumida em grandes quantidades.

A autoridade política do tuissa transcende os limites da aldeia, estendendo-se, conforme seu desempenho como chefe de comunidade e de acordo com as relações com os demais tuissa, sobretudo, com o tuxaua geral.

Atualmente, podemos observar que o grau de influência política de um tuissa oscila segundo alguns critérios, dos quais se destacam: o clã ao qual pertence; suas relações de parentesco e prestígio junto aos demais tuissa; seu conhecimento sobre o tempo dos antigos (história e mitologia sateré-mawé); sua capacidade como orador; sua tradição enquanto produtor do waraná; sua habilidade para o comércio; sua participação nas lutas históricas na década de 1980 (contra a abertura da estrada Maués-Itaituba e a invasão da empresa estatal francesa de petróleo Elf-Aquitaine); e a maneira como conduz os problemas internos de sua comunidade e a tônica de suas relações com os agentes da sociedade envolvente (políticos, comerciantes e parceiros na exportação do guaraná).

Segundo os mitos o waranã foi o primeiro tuissa (tuxaua). Colombo, filho do velho tuxaua Manoelzinho Miquilies, da aldeia Nova Esperança no rio Marau, contou em 1978 a “História do Guaraná”. Neste relato, Uniawasap, dona do Nusoken (que os Sateré-Mawé costumam traduzir como paraíso) cuida do cadáver do filho, morto pelos tios: “Ei meu filho, espia para cá! O filho espiou e aí a mamãe dele já tirou o olho do curumim, bem desse lado esquerdo, que é o guaranarana, esse que é o guaraná falso. Mamãe dele chamou outra vez, ei meu filho espia para cá! O filho espiou e a mamãe dele já agarrou e já plantou o olho direito do curumim, esse que é o chamado de guaraná verdadeiro. Guaraná tuxaua mesmo, aí já plantou, aí cresce, aí já ficou guaraná tuxaua. Tu tava morto meu filho, mas agora tá no guaraná. Ficou tuxaua. Guaraná tuxaua. É sempre ele que manda servir o guaraná, manda fazer roça. Ele que anima o serviço aqui no Marau, em todo esse rio. Tudo porção reúne, senta e a mulherada ralando guaraná, depois que toma vai trabalhar. Quando quer vem, manda ralar de novo, aí porção já toma, toma muito çapó no cuião grande. Assim é que ficou guaraná tuxaua verdadeiro, a mamãe dele fez assim mesmo e disse para ele: bom meu filho agora você vai ser o primeiro tuxaua, para tudo vão precisar, para caçar, para trabalhar, para curar, para beber de novo”.

Por este relato é possível compreender que waraná (guaraná) e tuissa (tuxaua) decolam de um conjunto de eventos míticos, para a supra realidade que funda esta sociedade, onde a primeira muda do guaraná verdadeiro (Paullinia cupana Kunth var. sorbilis (Mart.) Ducke) e o primeiro Sateré-Mawé são fruto da pajelança realizada por Uniawasap no cadáver de seu filho, morto por seus tios, heróis míticos do Nusoken. Trata-se da passagem da natureza, da plataforma cosmológica do Nusoken – onde os bichos eram como os Sateré-Mawé, para a cultura, quando, simultaneamente, o nascimento do primeiro Sateré-Mawé está associado à domesticação do guaraná, fundando a agricultura.

Segundo relatos dos tuissa mais velhos, já falecidos, no tempo dos antigos o tuissa era um chefe religioso, simbolizado pelo patawi, suporte confeccionado com cipó onde é colocada a cuia com o guaraná ralado – çapô. O tuissa tinha o poder de amparar os Sateré-Mawé e proteger o plantio do waranã. Atualmente, cabe ao tuissa ser o sustentáculo de sua comunidade, e fazer frente às pressões sofridas pelo contato com a sociedade envolvente.

Os filhos do Guaraná

A auto-imagem dos Sateré-Mawé como filhos do guaraná está traçada no plano ideológico no mito da origem. Inventores da cultura do guaraná, os Sateré-Mawé transformaram a Paullinia Cupana, trepadeira silvestre da família das Sapindáceas, em arbusto cultivado, introduzindo seu plantio e beneficiamento. O guaraná é uma planta nativa da região das terras altas da bacia hidrográfica do rio Maués-Açu, que coincide precisamente com o território tradicional Sateré-Mawé.

waranã é o produto por excelência da economia sateré-mawé, e dos seus produtos comercializáveis é o que obtém melhor preço no mercado. É possível ainda pensar que a vocação para o comércio demonstrada pelos Sateré-Mawé se explique pela importância do guaraná na sua organização socioeconômica.

A primeira descrição do guaraná e de sua importância para os Sateré-Mawé é de 1669, ano que coincide com o primeiro contato do grupo com os brancos. Segundo o padre João Felipe Betendorf “tem os Andirazes em seus matos uma frutinha que chamam guaraná, a qual secam e depois pisam, fazendo dela umas bolas, que estimam como os brancos o seu ouro, e desfeitas com uma pedrinha, com que as vão roçando, e em uma cuia de água bebida, dá tão grandes forças, que indo os índios à caça, um dia até o outro não têm fome, além do que faz urinar, tira febres e dores de cabeça e cãibras”.

Em 1819, o naturalista Carl von Martius recolheu na região de Maués uma amostra de guaraná, denominado-a Paullinia Sorbilis. Martius observou que na época já existia intenso comércio de guaraná, enviado a locais distantes como o Mato Grosso e a Bolívia. Assim, em 1868, Ferreira Pena escreve:

Cada ano descem pelo Madeira mercadores da Bolívia e Mato Grosso dirigindo-se à Serpa e Vila Bela Imperatriz, para onde trazem seus gêneros de exportação e donde recebem os de importação. Daí, antes de regressar vão a Maués, donde levam mil arrobas de guaraná, regressando então em ubás, carregadas daqueles e deste último gênero, que eles vão vender nos departamentos de Beni, Santa Cruz de La Sierra e Cochabamba na Bolívia e nas povoações do Guaporé e seus afluentes.

O comércio do guaraná sempre foi intenso na região de Maués, não só o realizado pelos Sateré-Mawé, mas também pelos comerciantes locais. A procura deste produto deve-se às propriedades de estimulante, regulador intestinal, antiblenorrágico, tônico cardiovascular e afrodisíaco. No entanto, é como estimulante que o guaraná, depois de beneficiado, é mais procurando, pois contém alto teor de cafeína (de 4 a 5%), superior ao chá (2%) e ao café (1%).

Existe uma distinção entre o guaraná de excelência beneficiado pelos Sateré-Mawé, denominado regionalmente “guaraná das terras, guaraná das terras altas e guaraná do Marau”, do guaraná beneficiado pelos agricultores na região de Maués, chamado “guaraná de Luzéia”, antigo nome da cidade de Maués, de qualidade inferior porque não é produzido com o apuro das práticas tradicionais ministrados pelos Sateré-Mawé.